Governadas pelo espelho digital: beleza, visibilidade e sofrimento social de jovens mulheres nas redes sociais digitais

Fazendo Educação




ISBN: 978-65-6009-235-8

DOI: 10.29327/5808727

Descrição: Este livro nasce da inquietação diante de um fenômeno cada vez mais naturalizado na vida contemporânea: a centralidade da aparência e da visibilidade digital na produção de valor social, especialmente entre jovens mulheres. Ao articular teoria social crítica, estudos de gênero, comunicação e pesquisa empírica, a obra propõe uma leitura densa e situada dos regimes de beleza, visibilidade e sofrimento que atravessam as redes sociais digitais, em especial o Instagram. Mais do que analisar imagens, este livro investiga vidas afetadas por imagens, métricas e olhares.
O Capítulo 1, Da moral da aparência ao capital de visibilidade: beleza como questão social, estabelece as bases conceituais da obra ao demonstrar que a beleza não é um atributo superficial, mas um dispositivo moral e social profundamente enraizado nas hierarquias de gênero, raça e classe. Ao reconstruir o percurso histórico que transforma o corpo em critério de respeitabilidade e distinção, o capítulo mostra como a aparência se converte em capital simbólico e, progressivamente, em capital de visibilidade. Seu principal mérito está em evidenciar que as exigências estéticas contemporâneas não surgem com as redes sociais, mas encontram nelas um ambiente de intensificação, mensuração e amplificação.
No Capítulo 2, Plataformas, métricas e governo algorítmico da visibilidade, a obra aprofunda a análise estrutural ao tratar as redes sociais como dispositivos sociotécnicos de governo. A articulação entre Foucault, Zuboff e van Dijck permite compreender como algoritmos, métricas e economias de dados reorganizam o campo do visível, definindo quem aparece, com que alcance e sob quais condições. O capítulo se destaca por revelar que a visibilidade não é distribuída de forma neutra, mas governada por lógicas econômicas e técnicas que transformam atenção em valor e aparência em dado explorável. Trata-se de uma contribuição relevante para os debates sobre plataformização, poder algorítmico e desigualdade.
O Capítulo 3, Regimes comunicacionais da beleza: gramáticas do corpo no Instagram, desloca o olhar para as práticas de apresentação de si, analisando a beleza como linguagem e performance. A partir de Erving Goffman, Judith Butler e Kerley Winques, o capítulo examina selfies, vídeos, filtros, legendas e feeds como gramáticas comunicacionais que organizam o que pode ser mostrado, reiterado ou silenciado. Seu ponto forte está em mostrar que a beleza não é apenas exibida, mas encenada, repetida e testada em interação com públicos difusos e algoritmicamente mediados. Ao mesmo tempo, o capítulo identifica fissuras na performance, evidenciando que nem toda repetição é perfeita e que há deslocamentos, ironias e tensões na encenação do corpo feminino.
O Capítulo 4, Juventudes femininas e espelho digital: narrativas de si na Grande Vitória (ES), constitui o núcleo empírico do livro. Nele, as vozes das jovens mulheres da Grande Vitória (ES) assumem centralidade, não como ilustrações da teoria, mas como produtoras de sentido. Ao articular território, identidade e narrativa de si, o capítulo mostra como essas jovens negociam quem são entre o bairro e o feed, entre a vida vivida e a vida mostrada. O valor deste capítulo reside na escuta sensível e situada, que evita generalizações abstratas sobre “a juventude” e revela como desigualdades urbanas, raciais e de classe atravessam experiências digitais concretas. A opção metodológica por citações diretas reforça o compromisso ético da pesquisa e confere densidade humana à análise.
No Capítulo 5, Feridas de visibilidade: vergonha, comparação e cansaço em ecossistemas de performance, o livro enfrenta de forma direta o sofrimento social produzido pelos ecossistemas de performance. Vergonha, humilhação, comparação, sensação de insuficiência e cansaço de aparecer são analisados como feridas morais, e não como fragilidades individuais. A partir de Axel Honneth, Nancy Fraser e Byung-Chul Han, o capítulo demonstra como a promessa de reconhecimento se converte, frequentemente, em fonte de dor, inferiorização e autoexploração. Seu principal mérito é deslocar o debate da autoestima para o campo da justiça social, mostrando que o sofrimento narrado pelas jovens é produzido por regimes desiguais de reconhecimento e por lógicas de desempenho que atravessam o corpo.
O Capítulo 6, Brechas no espelho: micro-resistências, autocuidado e política entre mulheres, encerra a obra sem recorrer a soluções fáceis ou discursos otimistas. Ao analisar micro-resistências, práticas de autocuidado, alianças entre mulheres e usos táticos das plataformas, o capítulo reconhece tanto a potência quanto os limites dessas fissuras. Inspirado em Foucault, bell hooks e Kerley Winques, ele mostra que dizer “não” às normas de beleza é possível, mas sempre de forma situada, parcial e tensionada. O valor deste capítulo está em recusar tanto a ideia de submissão total quanto a fantasia de emancipação plena, oferecendo uma leitura realista e politicamente comprometida das margens de ação disponíveis.
Como um todo, este livro oferece uma contribuição relevante para a sociedade ao iluminar os custos emocionais, simbólicos e políticos da vida sob regimes de visibilidade digital. Ao articular teoria crítica, pesquisa empírica e escuta atenta, a obra ajuda a compreender que o sofrimento ligado à aparência não é falha individual, mas expressão de estruturas sociais que transformam o corpo em prova permanente de valor. Em um contexto marcado pela intensificação das redes sociais e pela naturalização da comparação, este livro convida à reflexão, ao cuidado e à disputa por formas mais justas de reconhecimento, visibilidade e existência.

Autora: Rose Alves de Oliveira

Capítulos
INTRODUÇÃO

NOTA METODOLÓGICA: BASE EMPÍRICA, GRUPO FOCAL E PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE

Capítulo 1
DA MORAL DA APARÊNCIA AO CAPITAL DE VISIBILIDADE: BELEZA COMO QUESTÃO SOCIAL

Capítulo 2
PLATAFORMAS, MÉTRICAS E GOVERNO ALGORÍTMICO DA VISIBILIDADE

Capítulo 3
REGIMES COMUNICACIONAIS DA BELEZA: GRAMÁTICAS DO CORPO NO INSTAGRAM

Capítulo 4
JUVENTUDES FEMININAS E ESPELHO DIGITAL: NARRATIVAS DE SI NA GRANDE VITÓRIA (ES)

Capítulo 5
FERIDAS DE VISIBILIDADE: VERGONHA, COMPARAÇÃO E CANSAÇO EM ECOSSISTEMAS DE PERFORMANCE

Capítulo 6
BRECHAS NO ESPELHO: MICRO-RESISTÊNCIAS, AUTOCUIDADO E POLÍTICA ENTRE MULHERES

CONCLUSÃO

AUTORA



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