“Cancelado En El Conti”: Disputas e estratégias para trabalhar memórias traumáticas em espaços memoriais diante da ascensão da extrema direita na América Latina

Fazendo Educação




ISBN: 978-65-6009-223-5

DOI: 10.5281/zenodo.17754099

Descrição: “Cancelado en el Conti” é um livro protesto em que se reúnem pesquisas elaboradas e apresentadas no XV Seminário Internacional Políticas de la Memoria na Ciudad Autónoma de Buenos Aires, APESAR da censura e do cancelamento do evento pela Secretaría de Derechos Humanos do governo argentino de Javier Milei. Centenas de pesquisadores de diferentes países foram surpreendidos no primeiro dia do evento com a proibição de acessar e de realizar as atividades previstas no Centro Cultural de la Memoria Haroldo Conti, o que foi contornado pela organização do seminário por meio do trabalho voluntário de funcionários que haviam sido demitidos nos meses anteriores e que se colocaram à disposição para realizar o evento, e pela disponibilidade de espaços alternativos junto a organismos de memória e direitos humanos também localizados no Espacio Memoria y Derechos Humanos, na Ex-Escuela Mecânica da Armada. Frente à censura, diversas delegações se manifestaram em repúdio; os integrantes da Rede Brasileira de Pesquisadores de Sítios de Memória e Consciência (REBRAPESC) participaram de uma assembleia pública dos participantes do seminário, e em solidariedade aos organizadores cantaram, junto aos demais presentes, a música de Chico Buarque que transcrevemos em epígrafe e que possibilita situar a esperança frente ao autoritarismo, pois “amanhã há de ser outro dia”. Esta também foi uma oportunidade para enfatizar a retomada das pesquisas e do apoio à ciência no Brasil, uma vez que parte das pesquisas ali censuradas, foram financiadas e apoiadas por agências de fomento do Estado brasileiro, assim como de tantos outros países que encontram anualmente nesse seminário um espaço acadêmico de comunicação científica.    
O XV Seminário Internacional Políticas de la Memoria foi “Cancelado en el Conti”, mas aconteceu APESAR de tudo, em outros espaços, tendo como tema geral “Reflexiones, arquivos y testimonios: A 40 años del Nunca más”. Trata-se de um dos mais importantes, se não o mais importante, evento acadêmico no âmbito das políticas públicas de memória no Cone Sul, e que acontece anualmente desde o ano de 2008 por iniciativa do Centro Cultural de la Memoria Haroldo Conti que está instalado nas dependências da ex. Escuela de Mecánica de la Armada (ESMA), local que durante a última ditadura civil-militar na Argentina (1976-1983) teve as instalações utilizadas como centro clandestino de detenção, tortura e extermínio. Desde o ano de 2004, o espaço foi transformado em um organismo público de memória e direitos humanos, integrando representantes do governo nacional, da Cidade Autonomia de Buenos Aires e de organismos de direitos humanos. Como esse cancelamento e a censura não foram um ato isolado, em janeiro de 2025 o Centro Cultural de la Memoria Haroldo Conti teve suas atividades suspensas, e seu futuro ainda é incerto. 
As pesquisas aqui reunidas possuem como horizonte a proposta da mesa temática intitulada “Disputas y estrategias de trabajo con memorias traumáticas en espacios de memoria frente al avance de la extrema derecha en Latinoamérica”. Em outras palavras, o que era para ser o tema a ser debatido entre os apresentadores e interessados pela mesa durante o seminário, tornou-se uma experiência de como o conhecimento e o debate científico são tratados por governos da extrema direita, como também há necessidade de resistência e de posicionamentos frente ao cerceamento dos debates. Dessa forma, a mesa temática da REBRAPESC e do Grupo de Pesquisa Sítios de Memória e Consciência (IFRS/campus Erechim) foi realizada nos corredores da Casa Nuestros Hijos, la Vida y la Esperanza de Madres de Plaza de Mayo-Línea Fundadora, rompendo com o cancelamento e como uma oportunidade de debates APESAR da indignação e das tentativas de silenciamento oficial. 
Para muitos dos participantes, entretanto, o espaço de memória e direitos humanos que nos últimos 20 anos tem sido de formação e educação, relembrou o tempo em que centenas de pessoas foram, nessas instalações, presas e torturadas por suas ideias políticas. Nesse sentido, se os debates e as apresentações de trabalho foram resistência, o caminhar pelos corredores e pelos pátios, o encontro com participantes de outras mesas e com a organização do seminário, o diálogo com os funcionários amedrontados e com os já demitidos, foram uma experiência de um silenciamento em um espaço que tem sido de alegrias, de músicas e do “nunca mais”. Ao comemorar 40 anos, pareceu, para muitos, algo tão próximo do que já tinham vivido, e para outros, o compartilhamento de incertezas que atravessou os argentinos nesse ano. E foi nesse contexto que, sem saber o que expressar, em coro cantamos o “Apesar de você/ Amanha há de ser/ Outro dia”.       
Esta publicação é um ato de APESAR, de contrariedade ao “Cancelado en el Conti” e um ato de solidariedade e de denúncia. Solidariedade porque sabemos que não apenas nessa censura, mas com o recente fechamento do Centro Cultural de la Memoria Haroldo Conti, a tradicional publicação dos trabalhos é algo distante para os organizadores que, em sua maioria, se não todos, foram demitidos. Denúncia porque no Brasil, tornamos um pouco mais conhecida essa situação, divulgamos o ocorrido aqui como um alerta para o que precisamos evitar, mas compartilhamos com os argentinos e com os demais participantes de outros países que lá estavam não só os trabalhos elaborados e apresentados em nossa mesa, mas a nossa indignação com o que “nunca mais” deveria acontecer, mas que aconteceu em 2025 e que contou, novamente, com a omissão de setores da sociedade e do Estado, e que, dicotomicamente, partiu de uma Secretaria de Direitos Humanos.   
As apresentações e os debates na mesa temática nº 35 deram origem aos treze capítulos deste livro, e, escritos em castelhano ou em português, são pesquisas de integrantes da REBRAPESC e de convidados, e propõem pensar, a partir de múltiplas perspectivas, o trabalho da memória em tempos tão difíceis. No primeiro capítulo, Brito e Jardim que foram os coordenadores da mesa temática, abordam o trabalho desenvolvido pela REBRAPESC em “Rede brasileira de pesquisadores de sítios de memória e consciência e as relações entre violência, espaços e memórias de passados traumáticos no Brasil”. No segundo capítulo, Abreu reconstrói e analisa alguns esforços para a preservação e difusão da memória de Marielle Franco, em “Quantas mais vão precisar morrer?: o trabalho de memória em torno da figura de Marielle Franco”. No terceiro capítulo, Dias, Júnior e Ribeiro analisam o papel dos museus de território indígena no Ceará como ferramentas de reafirmação da identidade étnica e reivindicação de direitos constitucionais, em “O papel dos museus indígenas frente a perseguição da extrema direita aos povos originários: negação do direito à terra e violações dos direitos humanos”. No quarto capítulo, Souza apresenta a disputa em torno da memória pública de Luiz Carlos Prestes, evidenciada tanto nos diferentes significados atribuídos a sua figura ao longo do tempo quanto nos embates sobre a construção e a manutenção de memoriais em sua homenagem, em “Vidas notáveis e memórias em disputa: sobre os memoriais dedicados a Luiz Carlos Prestes no Brasil”. No quinto capítulo, Ferreira, Fernandes e Oliveira analisam a construção de espaços de memória negra no Brasil, com foco no Museu Afro-Brasil-Sul (MABsul) e no Instituto dos Pretos Novos (IPN), em “A instituição de lugares de memórias afro diaspóricas: Instituto Pretos Novos e Museu Afro Brasil Sul-1. No sexto capítulo, Gonçalves, Vasconcelos e Cidade tratam das contradições entre desenvolvimento urbano, valorização ambiental e preservação da memória histórica em Porto Alegre, com foco na orla do Guaíba, em “Políticas urbanas y contradicciones: Transformaciones y lugares de memoria en la ribera del Guaíba”. No sétimo capítulo, Janovitch trata da relação entre cemitérios e a memória urbana, destacando como esses espaços funcionam como registros históricos vivos das cidades e de seus habitantes, em “Lembranças da última amiga: memórias de morte e de vida em disputa. No oitavo capítulo, Jardim enfoca nos museus da memória no Cone Sul da América Latina como políticas públicas que buscam promover o reconhecimento, a reparação e a não repetição, conectando memória, verdade, justiça e reparação, em “Sitios de Memoria y Conciencia como políticas públicas: sobre los museos de la memoria como elaboración del pasado”. No nono capítulo, Lima trata da memória da ditadura civil-militar no Piauí, especialmente em relação à Central de Artesanato Mestre Dezinho, em “O Dever de Lembrar e o Direito de Esquecer: Os Percursos da Memória da Ditadura Militar Brasileira na Central de Artesanato Mestre Dezinho em Teresina – Piauí”. No décimo capítulo, Moreno aborda as diferentes memórias (oficiais, alternativas, desobedientes, sensíveis e outras) e como elas influenciam e disputam locais e espaços (arquitetura) de memória, em “Como sobreviví en la memoria”. No décimo primeiro capítulo, Rodriguez aborda os sites de memória e seus processos de musealização a partir dos estudos de comunicação, destacando-os não apenas como espaços que promovem a memória, mas também como verdadeiros divulgadores e comunicadores científicos, em “Las políticas de memoria cómo comunicadores de la ciencia y contra el negacionismo histórico”. No décimo segundo capítulo,  Schons examina as memórias reprimidas e os traumas históricos decorrentes da ditadura civil-militar no Brasil e do Estado Novo português, com foco nas obras de Conceição Evaristo e Isabela Figueiredo, em “Testemunhos de ditaduras ibero-americanas: memórias pós-coloniais em Conceição Evaristo e Isabela Figueiredo”. Waismann e Wohlgemuth propõem uma análise sobre as disputas por memórias no contexto político e social brasileiro atual, focando em como a extrema direita político-religiosa busca construir narrativas que reforcem seu projeto de poder, alinhado à teologia do domínio, em “Disputa por memórias: como a teologia do domínio procura construir narrativas na sociedade brasileira”.
Nem todos os participantes da mesa disponibilizaram o texto para a publicação, aos quais da mesma forma agradecemos o debate, a presença e a colaboração. Aos organizadores do XV Seminário Internacional Políticas de la Memoria, aos funcionários do Centro Cultural de la Memoria Haroldo Conti que mesmo demitidos foram garantir a realização do seminário, e aos organismos de direitos humanos que cederam seus espaços e receberam as dezenas de mesas temáticas previstas, o nosso agradecimento. Que a publicação de “CANCELADO EN EL CONTI”: Disputas e estratégias de trabalho com memórias traumáticas em espaços de memória frente ao avanço da extrema direita na América Latina, possa contribuir com este APESAR em relação à censura, ao cancelamento dos debates e das pesquisas, que não é uma experiência isolada dos argentinos, mas de tantas outras sociedades frente ao advento de governantes que não aceitam a pluralidade humana e o seu livre pensar. 

Organizadores: Ana Paula Brito e Giovane Rodrigues Jardim

Autores: Alessandra Schunski Gonçalves; Ana Paula Ferreira de Brito; Antônio Luciano da Silva Júnior; Cristiéle Santos de Souza; Daniela Mendes Cidade; Diego Lemos Ribeiro; Gabriela Beraldo Rodriguez; Gabrielle Oliveira de Abreu; Giovane Rodrigues Jardim; Guilherme José Schons; Jocelem Mariza Soares Fernandes; Jorge Marcelo Wohlgemuth; Lilian Becker Oliveira; Lúcio Menezes Ferreira; Marcelo Moreno; Maria Clara dos Santos Lima; Moisés Waismann; Nauhan dos Santos Dias; Paula Ester Janovitch; Tássia Borges de Vasconcelos.

Capítulos
  • Rede Brasileira de Sítios de Memória e Consciência e as relações entre violência, espaços e memórias de passados traumáticos no Brasil
  • Quantas Mais Vão Precisar Morrer?: o trabalho de memória em torno da figura de Marielle Franco
  • O Papel dos Museus Indígenas Frente à Perseguição da Extrema Direita aos Povos Originários: negação do direito à terra e violações dos direitos humanos
  • Vidas Notáveis e Memórias em Disputa: sobre os memoriais dedicados a Luiz Carlos Prestes no Brasil
  • A Instituição de Lugares de Memórias Afro Diaspóricas: Instituto Pretos Novos e Museu Afro Brasil Sul -1
  • Políticas Urbanas y Contradicciones: transformaciones y lugares de memoria en la Ribera del Guaíba
  • Lembranças da Última Amiga: memórias de morte e de vida em disputa
  • Sitios de Memoria y Conciencia como Políticas Públicas: sobre los museos de la memoria como elaboración del pasado
  • O Dever de Lembrar e o Direito de Esquecer: os percursos da memória da ditadura militar brasileira na Central de Artesanato Mestre Dezinho em Teresina - Piauí
  • Como Sobrevivi En La Memoria
  • Las Políticas de Memoria cómo Comunicadores de la Ciencia y Contra el Negacionismo Histórico
  • Testimonios de Dictaduras Iberoamefricanas: memorias poscoloniales en Conceição Evaristo e Isabela Figueiredo
  • Disputa por Memórias: como a teologia do domínio procura construir narrativas na sociedade brasileira



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